segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Se sou criacionista? Não sei,
Se sou evolucionista?Não sei
Esse conflito eterno na humanidade..
Se vim de Adão e Eva?Não sei,
Se vim do macaco?Não sei;
Adão e Eva não eram macacos?
Mas e o coacervado?
Não sei...
Bom, só sei que nada sei
Se pudesse escrever um poema
Seria o mais singelo que te ofertaria
Mas sou um fingidor
Guardo meus sentimentos em um baú
E declamo meu fingimento poético
Falaria de amor... loucuras
Mas não os sinto
Coração de pedra-sabão
Faz deslizar cada palavra
Não sinto nada, só faço digerir
Os amores em vão
E tua face singela ainda me sorri
A espera do meu poema fingido
Velho menestrel vagabundo
Vende tua poesia na praça imunda
Declama aos gritos roucos
Emoção transbordando aos olhos
Mas passas despercebido
Ainda és o velho desconhecido
Cansei de buscar lógica nas coisas
Lógica no amor, na vida..
O que há de mais lógico???
Deixar tudo como está e largar na mão..
Na mão do tempo..
Um homem saiu
O outro fugiu
Um homem andou
O ouro abordou
Um homem parou
O outro não pensou
Um homem gritou
O outro atirou
Um homem caiu
O outro partiu
Um homem morreu
O outro esqueceu
Sincronizo a dança com passos errados
Não rebolo com a música descompassada
Ouço apenas a vitrola surda do vento
Doce alaúde...
Meus passos são todos psicodélicos
Formam alucinações no horizonte
Procuro não cair
Ainda que meus ossos sejam corroídos
Dou um giro, vôo em um salto
Um rodopio em um compasso
Dou uma pirueta até a lua
Fantasias coloridas invisíveis
São tecidas com a fibra da mente
Nesse espetáculo não há expectadores
Apenas eu, um louco rodopiando
Meu palco é um poço fundo
Iluminado por estrelas cegas
Que me aplaudem no silêncio
Considero a realidade com agonia
Teço a cada dia um tear sem fim
Em cada mão as linhas do futuro
Emaranham-se...
Teço entre pontos e alguns nós
Esses nós são as lembranças
Atrapalham...
A emoção não se reduz em palavras
As idéias sim, tomam formas
Formas em cada ser
Quando penso em reduzir uma idéia
Ela se organiza no papel
Lenta como um segredo
A emoção é o meio da idéia
A idéia conclui a emoção
Não preciso chamá-la
Ela chega com o vento pela janela
Ou atravessa as frestas do telhado
A emoção é uma enxerida
A idéia uma filósofa
Por cada rosa que murchou
Ou que murchará...
Pelo vermelho, rosa e violeta
Que desbota...
Pela aurora que a cada dia
Parece escurecer...
Quero que uma palavra ou gesto
Possa valer mais que promessas
Os anos passam
E elas são guardadas nas gavetas
Se um ato ingênuo for a solução
Que esse ingênuo venha apaziguar
A situação já anda aleijada
Nem o corrimão pode ajudar
A chuva já não lava a terra
Tudo já é impermeável
O caminho só nos leva ao abismo
Mas ainda espero ver a rosa brotar
E brotando no escuro do abismo
Há trazer a aurora colorida
De tons vermelho, rosa e violeta
Sou jovem, mas não quero ser tão jovem
Às vezes sou realmente
Eu sei, mas hoje não quero ser
Tenho visões além de tudo
Há quem diga que são bobagens
Posso ser inocente, ingênua
Posso ser esperta, pervertida
Um longo disputar de atitudes, de idéias
Em alguns momentos me desprendo do meio
Mesmo o meio querendo me prender
Na minha solidão reflito na escrita
As palavras caem desorganizadas no papel
Eu as organizo... em versos
Recito poemas para as paredes
Às vezes quero ser um menestrel
Pela juventude me divido
A vida, essa eterna escolha.
Nesse instante sou jovem
Quando me escondo das escolhas
Quando decido, elas fluem.
E as idéias resplandecem como a aurora
Não quero ser tão jovem quando as tenho
Às vezes as guardo na gaveta
Junto com os lápis e papel
A gaveta posso abrir um dia
Irei transmudar a realidade
Assim repassar o que me passa
Sei que a planta ainda há de brotar
Como brota a vida a cada dia
Não basta terra e água
O amor deve ser semeado também
Mas pelo que sei
Já não há terra nem água
Mesmo tendo o amor não há de florescer
A terra o homem ocupa
A água ele polui e desperdiça
E como a planta vai nascer?
O amor existe, mas não é fértil.
E sei que talvez ainda possa ver
A planta nascer
Entre as pedras do quintal...
Se homem é bicho instruído
Como pode haver tanta indiferença?
Homem, tu sabes entender?
O mundo não há de crescer
Hoje encolhe a cada dia
E tu homem, o que pensas do futuro?
As cadeias estão cheias
As cidades estão ocupadas
Até a lua já tem dono
Onde deverás te esconder
Quando teu tempo cessar?
Homem...vê logo tua vida
Minha única negligencia
Não te amar
Como te amar assim?
Além do muro ainda há vida
E sei que posso derrubá-lo
Mas prefiro me esconder
Por detrás de sua sombra
Minha estrela foi embora
Tão longe estás agora
Como pude te deixar partir?
Minha estrela Dalva, bela e cintilante
Hoje longe em outros céus
Sei que ainda possui o mesmo brilho
Como em outrora já possuías
Como pude te abandonar...
Terei eu não enxergado teu brilho?
Busquei de brilhos falsos...
Minha estrela está tão longe
Não poderei ver-te novamente
Quando reluziu em minha vida
Dourada numa noite de luar
Não vi que era tu
Verdadeiro brilho ofuscante
Hoje sei...
Minha estrela foi embora.
Sinto tua ausência em mim
São galhos secos no inverno
São pastos outrora verdejantes
Hoje são terras mortas
Tua ausência, mais do que posso
Não choro, sou acalentado pela dor
Solitário ser exilado
Admiro tua lembrança
São espectros na memória
Imagens formadas
Transfiguram-se pelo ar...
Dos sete céus não caem chuvas
Cai fogo em direção a terra
São chuvas de mágoas guardadas
E todos correm...
Se pudessem chorar implorar..
A vida poderia enfim ter sentido
Não calar a frente dos sórdidos
Não chorar pela vida perdida
Queria eu, queria nós
Queria um segundo para radiar meu grito
Um grito como bomba atômica
Não destruiria vidas
Levaria a voz da verdade
A carne crua é estraçalhada
Na boca de feras famintas
O sangue escorre entre os dentes
Marcas de um suicida
Morte...
As feras tomam conta do mundo
Mastigam a alma alheia
Nossas carnes expostas pelas ruas
Presas nos dentes sujos
Talvez já nem se saiba
Os corpos seguem como zumbis
Pelas ruas são robotizados, guardados
E seus cheiros entranhados em embalagens
Expostas nas vitrines aos olhos do mundo.
Ainda hoje, até mais tarde
Meu consolo é o calor da madrugada
Sonolento apito a vigiar
Mormaço noturno...
Bocas riem ao longe, nada sabem
A luz do porte me hipnotiza
Gotas de vidro caem do céu nebuloso
Uma dose de sereno entorpecente
Um gole ilumina a alma
Entre versos não há carícias
Nesses versos morreu a vida
São linhas escritas por nada
Sentimentos guardados numa tecla
Paixão virtual, solidão acalentada
Essas luzes incandescentes
Luzes num quadrado morto
Espalham-se pela sala
E refletem nos rostos apagados

...
.Praças iluminadas, infestadas
Árvores robustas, moradias
Desintegram-se no silêncio tardio
São pedras duras, são musgos
São mendigos mudos, fedor
Essas pedras-mendigos pelo caminho
O desprezo passa ao lado
Mãos estendidas no ar como aranhas
Ossos, trapos, desgraças
Moedas caem como bombas
Vidas desfiguradas
Acabadas...
Se cobrem com mortalhas velhas
Levantam e seguem
Ao fim...
Tuas velhas cartas guardadas
Hoje já são pergaminho
Sentimentos outrora sentidos
Prosseguiram por entre destinos
Destinos que hoje não há...
Leio tuas velhas cartas amareladas
Guardadas no fundo do baú
São papiros, lembranças, lamentos
Palavras que faziam brotar sorriso
Hoje só restam as lembranças
Essas palavras por entre versos
Rimas simples falavam de amor
Velhos pergaminhos no velho baú
Tuas cartas roídas por cupins
Pura imagem do nosso fim
Ainda guardo tuas cartas
Por debaixo de trapos velhos
Teu sorriso ainda guardo (na lembrança)
Quem sabe sentir novamente
O sabor das tuas palavras
Teus pergaminhos de amor
Folhas amareladas
No fundo solitário do baú.
A rima desanda
Os versos são cupidos
Nada mais faz sentido...
Gritos ecoam no silêncio
São vozes mudas a chamar
Pés descalços e feridos a correr
A poeira cinza invade o ar
Nada mais faz sentido...
Palavras são vomitadas ao vento
O coração já não bate
O suor secou no rosto trêmulo
A chuva cai e me corta como navalha
Choro quente vindo dos céus
Nada mais faz sentido...
As lágrimas ainda resistem
Pedem clemência ao céu vermelho
O pranto... única solução
Porque agora nada mais faz sentido...
Se em um momento pensar em partir, nada direi
Se me disseres que volta, te esperarei de braços abertos
Se num instante olhar para trás, estarei aqui
Se pensar em mim a saudade me consola
No meu peito a ferida não cicatriza
Em cada lugar teu cheiro exala
No horizonte ainda vejo tua sombra a me deixar
Tão singela tua imagem partindo
Sumindo... E me deixando para trás
Não falo do Amor como sublime
Talvez o amor já nem exista
Não ouço palavras de Amor
Talvez o Amor esteja banalizado
Não direi “TE AMO”
Se amanhã já amarei outro alguém
Suspiros cessarão ao amanhecer
È o Amor que já partiu na madrugada
Nossos olhos não enxergam o Amor
Amor puro...
Amor sublime...
Amor carnal...
Talvez o Amor nunca tenha existido
Simples fantasia criada por nós
Meu coração aperta, não sofro de Amor
Agonia perturbante chamada Dor...
Sento a beira do cais do porto
Meus pés molham levemente a beira do rio
Meus dedos somem nas águas barrentas
Seriam elas a esconder segredos?
Um sopro do vento balança as folhas
Sopra em meus cabelos que dançam no ar
Silêncio, sussurro, temor
Queria eu um momento para lembra...
Lembrar e sentir o passado
Meus olhos pesam
Gotas de pranto deles escorrem
Não são águas barrentas
São pequenos pingos de cristais
Caem no rio e somem ...

maré.....

A maré lambe a beira da praia
Meus pés molham na beira da praia
A espuma das águas chora na beira da praia
O som da paz conversa na beira da praia
Meu canto ecoa na beira da praia
Quem me escuta na beira da praia?
A terra é fofa na beira da praia
A cor é azul na beira da praia
O cheiro é de terra molhada na beira da praia
Tudo é puro e singelo na beira da praia
Meus olhos avistam o horizonte da beira da praia
A solidão me consola na beira da praia
É a maré que lambe a beira da praia
Vem e leva minha tristeza pra longe da praia

....
Quando teus lábios nos meus tocaram
Fez-se fogo do que já adormecia
O hálito da noite então aspirava
Pulsações que ao longe se ouvia
Era o som da espuma do rio
O silêncio cantava na tua presença
Entre beijos... o teu sussurro
Na brisa da noite ecoa tua voz
No teu canto meu encanto
Segundos que já não voltam mais...

interno...

Há quem nos faça sorrir...
Chorar...
Amar...
Há quem apareça nos sonhos...
Há uma ventania atordoante
Que chega ao final da tarde...
Será a vida que acaba de chegar?
Ou um breve aviso do meu final
No sussurro as palavras voam como borboletas
Flutuam no som do silencio aconchegante
São as borboletas que fluem do ar
Os ouvidos se deleitam na calma
Teu simples sussurro é mais que um cantar
Silencia o som doce do ar
E no sopro suave da tua voz
Suavemente esqueço tudo

apenas as flores

,
Vejo flores em toda parte,
Flores nos botões e nas camisas
Flores nos tecidos e nos sapatos
Flores de crochê no cabelo da moça
Mas não sinto seus perfumes
No toque, não há delicadeza
Suas cores não são vivas
Não desabrocham com o raiar do dia
Não alegram as manhãs de sol
E o perfume a exalar, onde estão?
Os canteiros... já não existem
E as flores da praça onde estarão?
Crianças não correm para cheirá-las
E o bem- me – quer mal-me-quer?
E ando, não há flores... Flores reais
Apenas o sol quente que ilumina
A flor de crochê no cabelo da moça

...

Indigente é quem?

Vês aquele homem eu passa?
Aquele que se consola na praça?
Cigarros, cachaça e entorpecentes
São esses seus irmãos em vida doente
Quem passa não enxerga
Para a solidão a alma se entrega
O tempo corre, a vida morre...
Nunca foi visto ou querido
Será que ainda lhe resta um pedido?
Morrer e ser lembrado
Chorar, sofrer e ser perdoado
E o homem se abandona na praça...
Só quem lhe consola é a desgraça
Mãos grossas, sujas, calejadas
Roupas velhas, imundas e rasgadas
O que foi sua vida? Será que viveu?
O que importa agora, tudo morreu
O homem chora na praça...
Crianças passam e fazem pirraça
Raízes tomam conta de seu corpo
O mundo agora já lhe parece torto
Ajudas não haverá
O que há de esperar?
E o homem morre como indigente...
Tomado por raízes como serpentes
No lugar agora nasce uma flor
Seria ela a prova de sua dor?
Vem alguém e leva com graça
A única lembrança do homem da praça
Pensei que o amor fosse privilégio
Privilégio de quem merece um amor
E descobri vivendo que todos merecem amar
Não importa quem tu és
Falso, mentiroso ou outros mais
O amor vem e te cura totalmente
O amor sempre vem, cedo ou tarde
Sempre chega de surpresa e sem bater a porta
Ele entra, não pede licença
Se você tentar evitar, esqueça
Já não podes, agora é tarde
Ele já está do teu lado
Sereno e aconchegado

apenas mais um

O tempo passa no seu contínuo
E escute! Não te guie por relógios
São apenas objetos de consumo
Eles não te mostram o teu tempo
Não te mostram as oportunidades da vida
Ou o tempo que já perdeu
O tempo corre e ele é teu guia
Segura na mão dele e segue também
No percurso não descuide, cuidado
Um pequeno tropeço pode te atrasar
E olhe! a vitória no horizonte te espera
E se ela for embora, você tentou
Seguindo no seu tempo
Tudo acontece, mas nem tudo passa
Você amou, brigou, consolou...
Enfim, você viveu
Mas o tempo é uma estrada e tem fim
Próximo ao fim lembre que você ganhou
Nunca há perdedor para o tempo
Apenas os fracos e desiludidos
E no último segundo do teu tempo
A certeza de que nada é perdido

cortejo

È mês de festa em Belém chegou à festa junina
O cordão do boi já está pronto pra passar
Meu batalhão das estrelas já reluz como seu nome
A concentração é bem ali...
O vento sopra e balança as fitas nos chapeis
Balança as saias das morenas dançando
Toca um som de toada no carro parado
São sorrisos que esquecem qualquer problema
E chega o meu boi
Vem bonito, bordado e dançando
O tripa vem embaixo e nem sente o peso nas costas
E dança, vira, pula e mexe com as crianças
O arrastão já vai sair, e cantam toadas e carimbó
As mãos treinadas tocam tambores, barricas e maracás
Os pés mexem no ritmo da batida
E vão todos seguindo a avenida
E o colorido das fitas e dos cantos
Vão sumindo no horizonte

poeta ...escritor.....amador???

Não sou poeta, nem sou escritor
O que faço não sei,,, apenas repasso
O mundo gira em minha volta
E já não sei o que é neste momento
De tudo um pouco já tentei ser
Mas tudo me parece tão relevante
E ainda lembro, não sou escritor
Mas meus olhos enxergam (eles doem)
Minhas mãos suam secam e calejam
Não penso em ser poeta ou escritor
Nem pensem que sou egoísta
Talvez nem saiba o que faço
E ainda assim repito
Não sou poeta e nem escritor
Também não me chamem de modesto
Apenas escrevo, leio e releio
Na rotina tudo parece efêmero
Eu sei e isso não importa
Pois tenho uma vida além da janela

vitórias

Nossas vitórias e felicidades são como pedras
Elas são verdadeiras sempre nos pequenos gestos
São pequenos diamantes com valores incalculáveis
Tão pequenos e com um brilho ofuscante que nos cegam
E ao se pensar nas grandes conquistas
Muitas vezes alcançadas com ambição
(Dessas que passam por cima de tudo e todos)
Essas parecerão montanhas de pedras frias e escuras
São tão grandes, que tapam o sol
E assim nos impedem de ver o outro lado

Belénzurca

Veja o encanto da minha terra
Cheirosa e gostosa, sem igual
Hoje tem festa na minha cidade
E a festa da minha mãe de Nazaré
Vem vindo pelas ruas de Belém
Trazendo emoção e fé
radiante nos olhos desse povo
Mistura teu sagrado e teu profano
Vejo mãos calejadas que levam terços
envelhecidos pelos anos
Vejo mãos que batem tambores
em um som colorindo as ruas
Teus risos, cantos e encantos
Tuas rezas sagradas dias e noites
E gira as crianças nos brinquedos
E toma as ruas com tuas festas
Essa é minha terra, minha Belém
Minha amada Belém
E chama todo mundo pra vim ver
leva tua fé pelo mundo
Mostra quem tu és para todos
Mistura o teu sagrado e teu profano
Ficando mais jovem a cada ano

...

Não chore, lágrimas são águas Águas salgadas como o mar. Água não simboliza tua dor.
Dor, essa tua ingrata irmã
Mas são águas, escorrem pelos olhos
Águas escorrem pelas pedras Pedras duras, frias e sem vida
Como esses teus olhos doentes

Não sei por que choras...
Chorar é para os fracos
O mar é lágrimas salgadas
Água forte e cheia de vida

Esconde tua dor, esqueça
As águas secam, o sal fica
E quando teu choro cessar
Lembre apenas das águas do mar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Buscando algo

A rima desanda
Os versos são cupidos
Nada mais faz sentido...
Gritos ecoam no silêncio
São vozes mudas a chamar
Pés descalços e feridos a correr
A poeira cinza invade o ar
Nada mais faz sentido...
Palavras são vomitadas ao vento
O coração já não bate
O suor secou no rosto trêmulo
A chuva cai e me corta como navalha
Choro quente vindo dos céus
Nada mais faz sentido...
As lágrimas ainda resistem
Pedem clemência ao céu vermelho
O pranto... única solução
Porque agora nada mais faz sentido...

Indigente é quem?

Vês aquele homem eu passa?
Aquele que se consola na praça?
Cigarros, cachaça e entorpecentes
São esses seus irmãos em vida doente
Quem passa não enxerga
Para a solidão a alma se entrega
O tempo corre, a vida morre...
Nunca foi visto ou querido
Será que ainda lhe resta um pedido?
Morrer e ser lembrado
Chorar, sofrer e ser perdoado
E o homem se abandona na praça...
Só quem lhe consola é a desgraça
Mãos grossas, sujas, calejadas
Roupas velhas, imundas e rasgadas
O que foi sua vida? Será que viveu?
O que importa agora, tudo morreu
O homem chora na praça...
Crianças passam e fazem pirraça
Raízes tomam conta de seu corpo
O mundo agora já lhe parece torto
Ajudas não haverá
O que há de esperar?
E o homem morre como indigente...
Tomado por raízes como serpentes
No lugar agora nasce uma flor
Seria ela a prova de sua dor?
Vem alguém e leva com graça
A única lembrança do homem da praça

Falar de Belém é falar bem?

Que linda é minha cidade
O sol quente e a chuva da tarde
O cheiro do patchuli, do cupuaçu
Minha gente alegre e cheia de vida

Mas ao cair da noite, essa noite.
Vejo a realidade vagando como almas
Cruel e vagando pelas praças, ruas e esquinas

A vergonha toma minha cidade
Vergonha descarada, humilhante
Nos seus olhos só vejo desgraça
E a dor espalhando pelo ar
Fedor, exalando como carniça
A miséria como doença mortal

Crianças pedintes, abandonadas
Jogadas em ruas e praças do comércio
Mendigos e animais comem restos
Se amontoam como lixo pelos cantos

Meninas putas na BR, pela noite
Vendem seus corpos por moedas .
Tão crianças e tão maduras pela vida
Seus olhos são mortos...
Em um bar agoniza um porre
Abandono...
Tão normal, já nem se percebe

Agora vejo, onde está a vida da minha cidade?
Meus olhos estão abertos
Tanta imundice descontrolada, fedorenta·.
E quem pode fazer algo?
Quem pode nada faz, têm os olhos fechados·.
Se reúnem em seus prédios, suas prisões, mausoléus·.
Suas bocas abertas, gargalham·.
Gargalham? Da desgraça humilhante?
Fingem que nada sabem
E de nada querem saber
E vão levando suas vidas imundas
Sujeira disfarçada no canal da Doca

Um poeminha da tarde...

Por cada rosa que murchou
Ou que murchará...
Pelo vermelho, rosa e violeta
Que desbota...
Pela aurora que a cada dia
Parece escurecer...
Quero que uma palavra ou gesto
Possa valer mais que promessas
Os anos passam
E elas são guardadas nas gavetas
Se um ato ingênuo for a solução
Que esse ingênuo venha apaziguar
A situação já anda aleijada
Nem o corrimão pode ajudar
A chuva já não lava a terra
Tudo já é impermeável
O caminho só nos leva ao abismo
Mas ainda espero ver a rosa brotar
E brotando no escuro do abismo
Há trazer a aurora colorida
De tons vermelho, rosa e violeta