sábado, 30 de outubro de 2010

Tenho dois olhos estranhos
Chamem-os de tortos ou caolhos
Tenho olhos para olhar os opostos
Um olho marca o ocidente
O outro percorre pelo oriente
Em minha testa linhas de giz
Marcas divididas geograficamente
Meus dois olhos vivem sozinhos
Não precisam do meu cérebro para controlá-los
Um acorda para o dia escaldante
O outro mergulha na noite enebriante
Meus olhos, pobres e repugnantes.
Independentes e presos ao meu rosto
Talvez um par de lentes possa domá-los
E fazer-lhes percorrer uma só visão
Sei que meus olhos são únicos e estranhos
Que poderiam chamar a atenção
Mas o mundo me goza, me aponta
Vou guiá-los como cavalos
Sempre em frente com tampões ao lado
E com lentes encaixá-los nas retinas

Pura ilusão

Deixo meus versos aos teus pensamentos
Não tema, pois neles nunca vou estar
Sigo em transe por entrelinhas
Nunca em razão por alguma questão
Sou filha das palavras, verbos por criação
Ausente de alma, pura ilusão

Esqueça-me ao ler estas frases
Tão imperfeitas de meus pensamentos
Teoremas, paradóxos e absurdos
Poetar é anestesiar a razão
Ausente de alma, pura ilusão

Transceda aos limites da tua loucura
Ao acreditar que lestes a tua vida
Nestas linhas criadas por outro alguém
Pela noite, em solidão, sensação
Ausente de alma, pura ilusão

filosofia ateísta

Não quero pensar em um ser celeste
Pois nada há no céu além de núvens
Não amarei um deus de pedra no altar
Condenado as vozes da escuridão
Templos de ouro cairão ao abismo
Teus tesouros comidos pelas feras
E suas crianças ao delírio da luxúria
Não amarei o braço preso a esta cruz
Que decora quartos e putas de bordeis
Rosário, esta mãe , falsa descarnada
Todos atiram-me pedras insignificantes
Criticam-me ao passar das horas, mas saibam
Não morrerei em frente ao meu profano

Minha crença é o surreal
Meu deus a própria arte
Contida na literatura arcaíca de filósofos
Caminhos proféticos da própria razão
Profano, profundo, prossigo na mesma ilusão

luzes da cidade

Vejo as luzes a passar pela cidade
Ofuscam, são raios a me flechar
Esta cidade, minhas falsas verdades
Palavras não vão me cegar

Vejo passar, como passam sonhos
Sempre a sumir, como somem desejos
Não basta fingir ser tão risonho
Não quero lembrar

Me vejo a guiar alguém que já não conheço
Nada me importa, o tempo não é meu
Pois tudo passa e eu sempre esqueço
É fácil fingir, ou dizer que morreu
Não vou mais chorar

Eu peço um tempo, uma vida talvez
No clepsidra me banhar, afogar
Vou retornar e viver tudo outra vez
Sempre a me guiar

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Gozarei de prazer ao ver a aurora deste dia
Imaginada na paisagem pincelada deste quadro
Mostrarei a maçã ao mundo arcaico
Colhida no jardim fétido de pecados mundanos
Envolvo-me nas horas deleitosas
Sentindo o gozo da luxúria a envolver-me
Neste leito, espero corpos ao meu encontro
Envolvida pela noite, hoje me faço devassa
Mas amanhã de nada mais saberei…
Banhar-me-ei, então, das lágrimas de minha mãe
Piedade, pois morrerei pela manhã a cada dia
Quando sinto que o tempo esqueceu-me
Enebriada fico ao som desta melodia tão ausente
Retiro-me agora para uma ilha interna
A espera do resgate de minha lma
Ou apenas um sonho surreal que me leve ao paraíso

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Hão de haver relíquias, mas não como tu
Tu, que por objeto transfigurou-me
Tu, que açoitou o mais íntimo das minhas noites
Tu, que atira minha razão aos moinhos de vento
Quero-te por mais que tudo
Viver em teu contexto a essência da arte
Não o surrealismo dos sonhos
Não o dadaísmo do nada
Mas esta que brota da terra
A verdadeira arte banhada em mim